—Ora seja louvado e adorado Nosso Senhor Jesus Cristo!
—Para sempre seja louvado no Céu e na Terra e Sua Mãe Maria Santíssima!
—Ó compadre, então já sabe?! —Já sei o quê?! —O que aconteceu ontem! —Não sei, não! —Ó compadre, pois está o povo cheio e não se fala para aí doutra coisa! —Mas o que é?! —A escandaleira que houve com a Miquelina do Gregório... —Ah! Pois nem sei nem quer saber! —Mas olhe que é a pura verdade! —Seja que não seja! Verdade ou não, tudo é murmuração e a murmuração é como o fogo. Quem a diz atiça o fogo; quem a escuta deita-lhe lenha! Quem murmura traz o diabo na língua; quem ouve de bom grado a murmuração trá-lo nos ouvidos! —Mas que mal há em dizer uma coisa que toda a gente sabe?! —Ouve lá: que lucro se tira em reparar que alguém é mau e espalhá-lo aos quatro ventos? Isso a mim só me faz um mal maior. O melhor é a gente ver a trave que tem no olho e não se importar com o argueiro do vizinho. —Mas então, se a mim me vêm dizer uma coisa, eu terei alguma culpa nisso?! —Não tens culpa, se começares a ouvir, antes de saberes que vão cair na murmuração. Mas logo que te apercebas disso, deves defender e desculpar o próximo e mostrar desagrado em ouvir esse palanfrório. Santo Agostinho mandou escrever no seu refeitório estas palavras: “Não se sente a esta mesa quem murmure dos ausentes.” —Mas a gente nem sempre pode voltar as costas a quem fala! —Mas podemos sempre dar a entender, com mais ou menos delicadeza, que preferíamos mudar de assunto. O Eclesiastes lá diz: “Cerca de espinhos os teus ouvidos e não prestes atenção à má língua”. —Mas se o que dizem é verdade, se é mesmo público e notório!... —Mesmo assim! Já se vê que, sendo calúnia, é incomparavelmente pior. A calúnia é um roubo na boa fama do próximo, uma matéria em que é bem difícil a restituição, quando se pretende reparar o mal que se fez. A calúnia é uma espada de três gumes que faz, dum só golpe, três feridas: no que calunia, no caluniado e naquele que escuta o caluniador. Além disso, tu bem sabes que, quando se fala de algum escândalo, não é o intuito moralizador que leva os murmuradores a assoalhar a vida alheia. Os que têm desejo de levantar moral pública procuram, antes de tudo, dar bom exemplo, e bem sabem esses que quanto mais se fala no mal mais ele se espalha. Lembra-te, compadre que falar no mal é fazer propaganda do diabo! —Nisso é o compadre capaz de ter razão! —Não duvides! Por isso, meu amigo, o melhor que temos para fazer é deixarmos as vidas dos outros e cuidarmos, antes de tudo, de emendar os nossos próprios defeitos! E olha que já não teremos pouco que fazer!