A parábola do ?Samaritano? convida-nos, claramente, a uma prática de proximidade em todas as circunstâncias, com o ?homem de dores?, o ?familiar do sofrimento?, de quem estamos sempre tentados a desviar-nos. Mas, para além disso, não nos convidará a contemplar o próprio Cristo, ao que somos induzidos por uma tradição da leitura deste episódio?
Contemplação sem a qual nos arriscamos a ficar ao simples nível da moral, quando Lucas nos abre para uma perspectiva mais profunda, centrada sobre a experiência do mistério de Deus. De facto, para os Padres da Igreja, é mesmo a história da Salvação que se descreve nestes versículos. O homem que desce de Jerusalém, lugar por excelência do encontro com o Senhor, no Antigo Testamento, é todo o ser humano que se afasta da presença de Deus, tornando-se, assim, fácil presa do Mal, e que, vítima da sua própria avidez, semeia a morte em si mesmo e à sua volta. Para a Lei, simbolizada pelo padre e pelo levita, embora santa e boa, é incapaz de salvar o homem ferido de morte pelo pecado, homem incapaz de fazer o bem que quere e de evitar o mal que não quere. O bom Samaritano aparece como se fosse o próprio Cristo, Deus que escolheu tornar-Se próximo da nossa humanidade, até Se fazer um de nós. Hoje, exaltado na glória do Pai, confia-nos à Igreja, dispenseira do óleo da unção, assim como do pão e do vinho, isto é dos sacramentos que curam, alimentam, restauram forças. Compete-nos compreender como Deus Se torna próximo de nós e, n’Ele, nos torna próximos dos nossos semelhantes. Ou não será neste fogo consumidor que os cristãos podem alimentar a chama do seu amor?