?Amarás o teu próximo como a ti mesmo?...? Será preciso alguém amar-se a si próprio?
Cada vez que leio esta Palavra de Jesus, penso naqueles e naquelas que já não se amam. O acumular de provas e fracassos, o desgosto de viver, até à tentação do suicídio...
Se tiverem a paciência de me ler, gostaria de dizer-lhes que aos olhos de Cristo que os ama — disso estou certo — são únicos e preciosos. Que com Ele, pode cada qual reaprender a amar-se humildemente. Também rezo para que esses encontrem, o mais depressa possível, um olhar que os espera, um ouvido que escute, uma palavra que apazigúe, um gesto que salve. “E quem é o meu próximo”? Uma vez mais, Jesus não responde à pergunta que lhe fazem. Conta uma história. Uma hostória, para dizer, muito simplesmemte: “Se quiseres a vida eterna, toma cuidado do estranho ferido que encontras no caminho, mesmo que isso te impeça de chegares a horas à Missa onde te dirigias. Cuida de prestar um serviço, mesmo que financeiramente isso te custe algum dinheiro! O próximo não é já o outro que eu tenho de amar mas aquele que se faz próximo dele. O próximo é o que manifesta misericórdia, não o que dela beneficia. Ora aí está como o próximo não é o outro! Eis-me, pois, chamado a ser próximo do outro que precisa de mim. Ou como dizia o antigo adágio de Ruysbroek: “Se estiveres em êxtase e o teu irmão te pedir uma tisana, deixa o êxtase e corre a servir-lhe a tisana. O Deus que deixas é menos certo do que o Deus que encontras”! Entendamo-nos: para este grande místico do século XVI, o tempo da tisana não dispensa o do êxtase, o tempo de serviço não dispensa o da oração. Mas toda a tradição espiritual que nos vem do judaísmo e, como vemos, de Jesus, aplica-se a revelar a mentira de nos instalarmos facilmente em rezar sem servir. Denuncia também o escândalo de que poderíamos ser causa. multiplicando ritos e orações na mais perfeita indiferença por aqueles que sofrem. E são muitos... Deus o sabe. Que Ele nos dê a graça de nos tornarmos verdadeiros “próximos”!