Jesus caminha. Tomou “com coragem a estrada de Jerusalém”. Procurando ser fiéis ao texto grego, podemos traduzir: “Endureceu a face”. O Seu belo rosto exprime uma resolução irrevogável, Crispação, voluntarismo, obstinação de um jovem rabi deslumbrado pelo sucesso dos seus milagres? Não.
A sua determinação está ancorada numa profunda e paciente escuta interior. O silêncio das longas noites de vigília permitiu-lhe pressentir o projecto de Deus a seu respeito e corresponder-lhe inteiramente, O Mestre adivinha a sorte que lhe reservam os adversários e, no entanto, os seus pés continuam a levantar a poeira das estradas da Galileia. Uma certeza ritma os seus passos: nada nem ninguém poderá entravar o seu regresso ao Pai. Este texro do Evangelho de S. Lucas projecta uma luz coruscante sobre a abertura do capítulo quinto da Epístola aos Gálatas. Paulo afirma: “Se Cristo nos libertou, foi para que sejamos plenamente livres”. E como pode aprender-se a liberdade a não ser contemplando o Filho do Homem? Jesus não se deixa submergir pelo medo, conduxir pelas suas pulsões ou influenciar pela opinião pública. A sua obediência nada tem de servil; é inteiramente filial. As suas raízes mergulham em Deus e uma certeza O anima: o Pai tem n’Ele a sua complacência. “Tu. meu Filho, estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu”, ouve-O Ele constantemente, no recôndito da sua oração. Chamados à liberdade, devemos ajudar Deus a realizá-la em nós e à nossa volta. Supliquemos-lhe que comunique um sopro novo ao nosso mundo “gemendo nas dores de um parto que ainda continua”.