Essa pequena pergunta que Jesus faz aos seus discípulos — “Quem sou Eu para vós?” — é, sem qualquer dúvida, para cada cristão, a pergunta mais urgente, uma pergunta transversal a toda a nossa busca espiritual.
É que, para ser cristão, não se trata de aderir a um corpo de doutrina ou a um catecismo sobre Jesus; também não se trata de uma aproximação intelectual e cultural ao Jesus histórico. Trata-se de saber como está a minha relação pessoal com Cristo. Que lugar activo tem Ele na minha vida? Quem é Ele para mim? Como é que a Sua Palavra me desperta e me faz viver dela? Como é que Ele incarna o coração da minha vida familiar, conjugal, profissional?... Ora isso supõe, diz Jesus, “renunciar a si próprio”. Não se trata de renunciar a sermos o que somos profundamente, de ferir a nossa identidade, de evitar os que nos torna felizes. Trata-se de tomar consciência do facto de que a melhor forma de “ser eu” é “segui-l’O”! Porque é ouvindo a Sua Palavra que nos tornamos plenamente nós-próprios. Trata-se, pois, de renunciarmos ao que em nós nos desvia de Cristo. Uma renúncia por vezes dolorosa, até cruciante, porque em nós o “homem velho” recalcitra! Mas não vamos imaginar que Jesus nos convida a carregarmo-nos de “cruzes” e de dores, para além do nosso lote, como se o sofrimento e a desgraça fossem meios suplementares de O seguirmos! Não. Trata-se simplesmente de acreditarmos que com Ele podemos percorrer, na esperança, o que o pintor George Rouault chamava “o duro ofício de viver”...