Vivemos numa sociedade da comunicação. O que conta, antes de tudo, é a palavra adequada, a encenação. Os governantes investem em sondagens, para escrutinar a opinião. Os políticos cuidam da sua imagem junto do público e, ao menor precalço, anunciam: vamos já resolver o problema!
A emoção tende a eclipsar a razão. Há um acontecimento importuno? Depressa, uma lei! Outro acontecimento inesperado? Depressa, uma nova lei! A comunicação espectáculo tolhe muitas vezes o passo à reflexão, ao trabalho, à visão a longo prazo, à tomada de decisões. Não é certamente este reparo que se pode fazer a Bento XVI! As decisões do Papa são, certamente, amadurecidas, teologicamente pensadas e concebidas para se inscreverem no longo prazo da Igreja Católica. Não há sondagens no Vaticano. Primeiro, as convicções: a comunicação e a preocupação da aceitação passam a segundo plano. A tal ponto que o sentido de certos anúncios escapa, por vezes, a um grande número. Foi o que aconteceu, há alguns dias, com a decisão de Bento XVI de relançar o processo de beatificação de Pio XII. A informação veio sem qualquer explicação. As reacções eram previsíveis: Pio XII não se atreveu a lançar um anátema sobre o nazismo, talvez por diplomacia, talvez porque julgasse inútil esse gesto, no auge da guerra, mas isso não obstou a que Pio XII envidasse todos os esforços para salvar da morte milhares de judeus, acolhendo-os em Roma, em centenas de instituições religiosas, numa atitude evangélica em que as obras valem mais do que as palavras. Esta prudência diplomática de Pio XII não obscurece a prática heróica da sua caridade nem a visão profética que ele teve da Igreja, pois a convocação do Concílio Vaticano II, renovador da Igreja, e claramente nos seus planos, estava já preparada e documentada, no dia da sua morte. Pio XII foi um papa lúcido e santo: bem merece ser apresentado como modelo de virtudes cristãs.